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A infância é uma natural distorção da realidade

By Luciane Dos Santos

O nosso jeito de ser começa a ser registrado quando somos crianças, ou melhor, quando ainda somos pessoas no início. Chegamos em um mundo e em um corpo já repleto de aplicativos de fábrica registrados no DNA e, crescendo, começamos a “abrir estes aplicativos” e a baixar novos.

Você já observou, por exemplo, que as crianças pequenas falam de si mesmas usando a terceira pessoa do singular: ele, ela ou dizendo o próprio nome? Isto quer dizer que ainda não se inseriram completamente na própria identidade: no eu do mundo.

Elas estão ainda em contato com a matéria original, com a não identidade e ainda precisam aprender a existir dentro de um corpo humano.

A percepção sensorial das pessoas no início de suas vidas humanas dentro do pequeno corpo é muito alta e pode ser até bem maior que a percepção das pessoas grandes.

Crianças possuem a inteligência na sua forma simples, mas absolutamente pura e elevada. Por isso, é nesta fase que iniciam as distorções de interpretação da realidade e a abertura dos aplicativos adquiridos.

A distorção é ligada à percepção alterada em relação ao espaço e tempo no corpo, que ainda é pequeno. Tenho certeza que você também lembra, por exemplo, quando entrávamos em lugares grandes como igrejas ou a escola e estas construções pareciam imensas.

Voltando aos mesmos lugares, depois de crescidos, ficamos até decepcionados ao ver que não eram tão grandes como nos lembrávamos, não é assim? Alguns degraus eram vistos como verdadeiras escadarias.

A visão, de dentro do corpo de criança que ainda é pequeno, é distorcida, aumentando as proporções de tudo o que vemos; como se as crianças usassem binóculos mentais ou lentes de aumento para ver, sentir e julgar o mundo ao seu redor.

Podemos, então, imaginar o que acontece a uma criança quando é maltratada ou abandonada? Mesmo uma simples discussão pode representar um drama ou a instalação de um aplicativo novo (e indesejável) que poderá se reapresentar no futuro em outras situações na vida.

Sem desmerecer as experiencias que vivenciamos, podemos questionar e conversar com a nossa criança interior, para explicar a ela que as coisas aqui na Terra não são muito fáceis. Nascemos neste planeta, justamente, para deixá-lo melhor e para produzirmos novos aplicativos, para quem chegar depois de nós.

Tratar memorias está na moda, mas insistir que elas sejam dolorosas e continuar a repetir o passado, não vai ajudar muito. Coisas acontecem e crianças crescem, ou ao menos é assim que deveria ser. A pergunta que faço para reflexão é: será que tudo o que nos lembramos e como lembramos, aconteceu realmente como estamos dizendo?

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